quinta-feira, 21 de julho de 2011

Somente pele

Vi algumas fotos das exposições de Miru Kim, fotógrafa norte-americana e fiquei encantada com seu fascínio pelo órgão pele.

As fotos nua em locais tão diversos, abandonados, sujos... a plástica visual é muito bacana.

A sensibilidade disso tem profundeza e limites individuais. O toque, o cheiro, o corpo, lidar com esses fatores tem diversas e tênues linhas.

Nua e desconexa da imagem exposta e ao mesmo tempo inclusa tem intensidade vital.. Parece que o corpo não deveria estar daquela forma naquele ligar, naquele momento.

A nudez, a exposição, é um ato de liberdade, de coragem, de aceitação, de tantos fatores únicos e mudos entre tantos.

A foto em que Miru Kim festá na Manhattan Bridge é muitíssimo imponente.

Exposição de 2009 - Manhattan Bridge
O fascínio de Miru por "pele" me faz pensar na grandeza e utilização da mesma.

Um dia uma pessoa estava conversando comigo sobre cenas de toque e pele. Algumas pessoas têm muito medo de seus namorados e namoradas (maridos e esposas) atores terem envolvimentos com seus amigos de trabalho por conta disso. Isso bate com a postagem anterior sobre o distanciamento Brechtiano entre personagem / ator, mas com certeza é algo delicado sempre. A cabeça tem que ser resolvida para que o corpo não padeça.

O ator corre riscos intensos e prazeres extremos. Palco é palco, riso é riso, amor é amor e é isso. Mergulho intenso e depois nado de volta. Há uma separação sim e é clara. Aos que estão solteiros ou abertos em seu interior às novidades emocionais, dá-se abertura para que a pele faça-se valer de si mesma e de outras peles.

É assim em qualquer lugar. Depende do seu estado interior.

Em uma oficina que fiz em 1997 numa escola de teatro em Laranjeiras no Rio, lembro-me como se fosse hoje de um exercício realizado no salão que estava completamente envolto pela escuridão. Quando menos esperava levei um puta tapa na cara. A regra era não abrir os olhos, e eu sou uma pessoa de regras, não abri, mas xinguei todos os palavrões que estavam em mim e não sabia que haviam tantos lá! Foi impulso, reação, e o toque daquela mão na minha pele com aquela força, me surpreendeu comigo mesma.

Coisas de pele, coisas que não esperamos, contato que não queremos, mas aprendemos a lidar com o novo. Tudo sempre é novo. Seja em aula ou na vida. As experiências de confrotamento com o que somos são diárias e são verdadeiras descobertas. Os sentidos, os sentimentos, as sensações que experimentamos todos os dias fazem diferença no nosso crescimento pessoal e isso muda nossa vida, nosso comportamento, nossas posições.

Uma das coisas que mais admiro são as rugas. Quando vejo no cinema, tv, no teatro, nas ruas, nas fotos... ah como amo ver rugas expressas em fotos... amo essas marcas do tempo, essa pele. É valorosa, é intensa essa pele. Carrega uma carga vivida grandiosa. Não sei como será a sensação de tê-las, mas vou tê-las e vou entendê-las...



Coisas de pele, coisas que descobrimos na pele e com a pele. Só vivendo.
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